MÃOS NEGATIVAS

Galeria Quadrado Azul, Lisboa

Vasco Costa, Filipe Feijão, Hugo Canoilas


Tout s’écrase
Je t’aime plus loin que toi
J’aimerai quiconque entendra que je crie que je t’aime
Trente mille ans
J’appelle
J’appelle celui qui me répondra
Je veux t’aimer je t’aime

Les Mains négatives , Marguerite Duras, 1979

Mãos negativas é um gesto anónimo. É a força que apreende objectos, intensidades e conhecimentos e os inscreve sob a forma de um signo, de um devir. Esse devir-obra estabelece uma relação com o futuro, com uma comunidade por vir, e está entre o sujeito e a obra, uma relação que se quer em permanente movimento. Mãos negativas agarra-nos ao enigma das imagens rupestres e da permanente oscilação entre futuro e passado, cultural e natural, mágico e profano.

O título Mãos negativas é emprestado pelo poema homónimo de Marguerite Duras. A imagem das mãos inscritas nas cavernas refere-se também à força que, na cave da galeria, construiu A gruta. As mãos em contacto com a parede são uma forma de empatia, erótica e abrangente, que abraça uma complexa rede de estímulos e impulsos interiores, assim como de impressões e expressões do quotidiano. A exposição permite-nos assim apreender também um conjunto de forças e intensidades presentes n’A gruta através das obras de Hugo Canoilas, Vasco Costa, e Filipe Feijão.

Canoilas apresenta dois conjuntos de pinturas. O primeiro desenvolve-se em torno de fragmentos de um poema que resulta de uma deriva em textos sobre a criação do mundo, de várias proveniências geográficas e históricas. O segundo conjunto apresenta animais pré-históricos ou já extintos. Ambos, imagem gráfica e texto, colocam num segundo plano de comunicação pinturas abstractas, produzidas com tinta acrílica fluída e anilinas que se tornam parte do corpo do tecido.

A imagem realista e o texto exigem-nos uma força racional e, por isso, reactiva perante aquilo que vemos, libertando as pinturas abstractas para uma comunicação passiva, livre de preconceitos, e ideal para receber uma pintura feita de forma livre, que é iniciada pelo seu autor mas que, simultaneamente, acontece à sua frente. A força interior das pinturas abstractas combina a energia do olhar animal, marcado pela horizontalidade, o manuseamento, e o modo como as matérias secam na superfície.

As esculturas de Vasco Costa são corpos. O corpo como ponto zero do mundo, segundo Michel Foucault, cujo pensamento tem uma ligação directa com estas esculturas, às quais empresta o título do seu livro Le Corps Utopique (1966). A banheira apresenta-se como espaço sinestésico, intermediário da nossa relação com o quotidiano, numa passagem da sua funcionalidade horizontal para corpo vertical. Por sua vez, esse corpo é uma representação negativa, na senda de Barnett Newman e sobretudo do espaço debaixo de uma cadeia, de De Kooning e materializado por Bruce Nauman.

Os actos escultóricos produzidos sobre estes objectos são impressões, sublimações e agressões sobre os corpos. Tratam-se de pequenas narrativas que o espaço criado pela crítica às grandes correntes da História da Arte e pela abertura à paridade de géneros possibilita à escultura e à arte em geral. As banheiras são o espaço de mediação entre o corpo e a sociedade, e as suas formas transformadas evidenciam um conjunto de forças exercidas pela sociedade sobre estes corpos.

As obras de Filipe Feijão estão indelevelmente ligadas à construção de uma obra escultórica no exterior da sua residência ao longo de quinze anos. A obra é composta por uma escadaria de dois andares em madeira, que recebeu de forma continuada objectos encontrados, cactos e peças escultóricas, todos modelados pela chuva e por outros elementos que lhes conferem a qualidade de algo irreproduzível, um organismo vivo num processo de constante adição e subtracção das suas partes. As peças apresentadas nesta exposição lidam precisamente com essa qualidade única, e reproduzem, com diferentes escalas, partes destas composições escultóricas que se autonomizam enquanto obras. O trabalho de Feijão reflecte um pensamento alargado da escultura, ao questionar o levantamento da forma, a ruína, a gravidade e a relatividade da criação escultórica e a sua inscrição social, consciente de que a primeira obra aqui referida se foi desenvolvendo como um processo secreto, longe dos olhares da cena artística.

 
 
 
 
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