A Gruta, 2019
at Galeria Quadrado Azul, Lisboa.

- uma plataforma de partilha da experiência, entre um grupo heterogéneo de artistas, a galeria e o seu público; de diferentes valores formais, conceptuais e preocupações estéticas , sociais e políticas.

A gruta é um falso. A gruta é uma plataforma que possibilita ganhar tempo ao espectador, iniciá-lo, tornando-o ativo. A gruta pretende gerar comunidade, desafiando a prática individual de cada um dos intervenientes e criando uma nova consciencialização, gerando novas formas a partir daquelas que estão latentes naquelas paredes, por oposição às paredes mudas do cubo branco.
A gruta resulta de um movimento anacrónico que nos permitirá fruir da experiência artística de um modo diferente da realidade e velocidade contemporâneas.
O anacronismo é uma das formas como os artistas contemporâneos têm vindo a fortalecer a ideia de temporalidade como potência, não linear, e tentar viver em pleno o momento presente - sem a colonização do futuro nem as grandes narrativas do passado (a arte rupestre é ainda um enigma, que tem resistido às múltiplas tentativas de compreensão e racionalização humanas). Viver esse momento presente exige a escolha de uma velocidade e tempo próprios, e um estado de permanente tentativa de individuação que nos conduz a um determinado modo epistémico resolvido sob a forma de obra de arte.
A gruta é um desafio. As suas paredes rugosas e cor escura oferecem um desafio quase tão básico como a mudança radical de formato na pintura ou a redução dos meios técnicos para fora da zona de conforto da nossa expressão. Intervir na gruta é como reaprender a andar (como na instalação de Vasco Costa em ue caminhamos sobre um chão coberto de pneus); implica uma atenção permanente para o chão (olhar animal) e para a frente (olhar humano). Poderá um olhar-animal implicar-nos com novas formas de percepção do mundo? A gruta pretende propor formas alternativas ao auto-centrismo humano e pensar em novos modos de empatia entre os humanos e os restantes animais, plantas e elementos no mundo.
A gruta carrega consigo um conjunto alargado de projeções que têm sido feitas sobre este fato extraordinário que é o início da produção de imagens. A mais relevante destas abordagens é a teoria de que as primeiras imagens foram produzidas por uma evolução da consciência humana – sendo a consciência algo mais abrangente que o espectro racional. A reposição (re-stage) da gruta é o campo fértil para além do racional (ou entre o racional e o hipersensível; entre o conceptual e o psicadélico) e procura dar voz a novas formas de consciência, a novas sensibilidades, que reflictam o aqui e agora.
Trabalha-se na gruta, sem a reprovação do normativo, daquilo que deve ser uma boa consciência. Estas novas sensibilidades organizar-se-ão no intelecto e serão também políticas.
De mãos dadas com esta capacidade da arte para no seu estado material ser algo para além da ciência, criando novas analogias e novas relações entre coisas,
a arte assume-se como modo genuíno para pensar o agora, a forma como as novas formas de subjetivação afetam as nossas relações interpessoais mas também entre os humanos, a flora, e a fauna, durante a 4a Revolução Industrial.

As primeiras pinturas rupestres – o seu valor simbólico ou parte da sua qualidade propositiva para este projeto estão ligadas para a condição do humano como colector e caçador, que é uma concepção do mundo radicalmente diferente dos agricultores e pastores. A sua concepção do mundo terá sido animista atribuindo um espírito tanto aos humanos como a animais e plantas – a tudo o que era vivo mas também à chuva e à montanha . Pensa-se que existia uma empatia psicológica entre espécies e existem exemplos de antropomorfismo gráfico onde os animais são representados com nariz, olhos, e dentição humana e os humanos são animalizados. A arte rupestre demonstra essa empatia e essa integração que nos faz sonhar numa comunidade ou pré sociedade entre espécies.
Em períodos anteriores à qualidade gráfica de Lascaux (intelectual e epistémica daí proveniente), os corpos com cor entravam em contato com a parede da gruta como forma de empatia.
Seriam sociedades complexas e que se estendiam por um vasto território (ou seria um espírito do tempo (zeitgeist) marcado pela evolução da consciência humana?
Os autores destas marcas nas cavernas e objetos deixados no interior destas tinham um lado assujeito, diferente da concepção moderna de arte. As pinturas e objetos seguiam um conjunto de regras e tinham muito provavelmente o intuito de partilha de conhecimento, difusão de ideias e influência social de um determinado grupo. Por outro lado há imagens isoladas e escondidas em lugares recônditos que possibilitam pensar num autor isolado e uma audiência precisa, que necessitam, ou pedem, por vezes um olhar educado.
A gruta é o lugar ideal para as novas cosmogonias acontecerem, dentro de uma determinada sensação ou consciência, através da intensificação dos sentidos que a perca de luz produz, potenciando o imaginário.
Poderá este remake de uma gruta albergar novas formas de consciência e formar um rumor aos desafios que a nossa sociedade contemporânea eleva? Para uma maior equidade entre os humanos e as restantes espécies do planeta deferindo de forma concreta o rumo que o capitaloceno teve no planeta?

Esta nova gruta construída artificialmente é composta por uma crosta tóxica, que nos remete para o impacto humano no planeta. Não há nada religioso, ou fértil nesta. A arte que se processa na gruta é um murmúrio numa matéria morta e tóxica.
Será que, de forma mimética, a nova gruta poderá desvelar novas formas, latentes ou a dormir, nesta crosta tóxica, como as formas já dadas há mais de 40.000 mil anos atrás nas pinturas rupestres? Poderemos almejar de forma ingénua (a arte e a filosofia procuram novas formas de ingenuidade também) encontrar uma nova determinada fertilidade da forma, do símbolo, ou mágica. Produzirá esta uma nova sensibilidade e consciência?
O trabalho na gruta implica o tacto. E é o tacto que implica uma intimidade com a gruta - tomamos este indício para assumirmos a dificuldade de impregnar nos sentidos um modo natural. Este projeto é um desejo natural de incorporar, e de aprender enquanto se faz um projeto desta natureza e implica a galeria, os seus artistas e o público.

É imperativo também notar o desaparecimento autoral.
A gruta é o receptáculo para um conjunto de intervenções que se sucedem durante um período de 2 anos. O trabalho de um artista sobre o outro implica uma comunidade orgânica e antropofágica. A gruta é de todos (desde os artistas que a construíram até à última intervenção) em todos os momentos. A cada autor pede-se que seja um meio, parte de um fluxo, uma intensidade, partilhável através do sensível. O visitante terá acesso a vestígios, apropriações ou justaposições, ou apenas à memória recente das obras anteriores.
O visitante edita as imagens com uma lanterna ou luz do seu smartphone. Sem saber, passa à condição ativa, editando aquilo que vê.
Um conjunto de projeções de filmes, performaces, conversas e outro tipo de intervenções mais efémeras, ampliam as possibilidades discursivas em torno desta obra coletiva.

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