Até que o Fim Rime e a Corda Estique!

2018


“Le corps est le point zéro du monde, là où les chemins et les espaces viennent se croiser le corps n'est nulle part : il est au coeur du monde ce petit noyau utopique à partir duquel je rêve, je parle, j'avance, j'imagine, je perçois les choses en leur place et je les nie aussi par le pouvoir indéfini des utopies que j'imagine.”                                                                                                                                                                                                                                          Michel Foucalt  “Le corps utopique”   1966
                                                                                                                                                                 No universo-mundo da hegemonia dos dualismos, debruçamo-nos sobre um em particular.

-O corpo/espaço-.

Não somente é questionado e refletido, como também é alvo de novas, velhas e potencialmente controvertíveis asserções.

Implica desde já esclarecer que a torrente de vocábulos que perfilarão neste texto literário, como “corpo” e “espaço”, prende-se com a necessidade e a inevitabilidade, e existe à margem dum qualquer estilo.



Propomos partições, partindo da dicotomia corpo/espaço, apresentamos como primeiro corpo, o eu-criador que extravasa o corpóreo e a matéria, o sujeito fecundo que emite e alberga em si a aptitude de existir e propagar existência, o corpo como sendo sensível e motivado para com a emissão de sinais, fenómenos e ideias. O segundo corpo será, portanto, o próprio “espaço”, esse espaço abrangente onde coabita o físico e o cognitivo, onde num sentido intimamente lato se unem harmoniosamente a realidade e a virtualidade. Uma construção concreta e abstracta onde o usufruidor possa sentir os corpos.   No curso da partição prometida, elegemos um terceiro corpo, que perpassa a ideia de corpo e espaço. Um corpo que circunvaga, que logra, dentro do matrimónio entre a corporalidade e a espacialidade, figurar, como um amante intrometido e pueril quanto baste, numa rasante por consistências tricotómicas que procuramos diagnosticar.

Importa notar que, nesta discorrência sobre três corpos, mais se poderiam juntar, quer “alíenados” em subdivisões quer em ramificações de maior ou menor plausibilidade. No entanto, estas são as partições que interessam ao propósito destas alocuções, um leve palmilhar sobre o entrecho dos processos na obra de arte até à “consagração” como objecto de arte em espaço expositivo.

Breves e especulativas notas sobre os “três corpos” e as relações com o trabalho de Vasco Costa.


1.

A partir de Henri Bergson, em “Matière et mémoire”, perpectivamos o primeiro corpo como um objecto destinado a mover outros objectos tornando-se um centro de acção com a capacidade de exercer uma genuína e, por conseguinte, uma “nova acção” sobre os objectos envolventes.

Vasco Costa não só exerce e move pressões sobre os objectos como tira partido do seu próprio corpo para precingir a sua relação com eles. Não o faz usando literalmente o corpo per se mas envolve-se numa batalha exaustiva pela consciência das vibrações que o corpo emana.

Os objectos escolhidos para esta exposição são axiomáticos na sua relação com esta problemática. 

Vasco Costa adopta objectos podem ser denominados como lugares do corpo.



As banheiras, como primeiro exemplo, são lugares do corpo, aplicam-lhes sensações, amiúde, sinestesias. As banheiras expostas como objectos escultóricos não fogem às atribuições que lhes foram passadas pela História da Banheira, no entanto, deixam que se encontrem nelas correlações que redefinem-se na obra de Vasco Costa, redefinem-se, não porque carecem de novas ou diferentes definições mas porque a carga imposta sobre elas pelo corpo-autor-criador sugere uma catrefada de recursos análogos. Se a banheira é definida como uma matéria criada para servir o corpo, com a sua horizontalidade, a sua ergonomia, a sua função de conter e receber o corpo e a água com o intuito primário da lavagem ou da limpeza, a apropriação do objecto na esfera criada pelo artista sugere-nos também perguntas. Perguntas sobre a domesticação do corpo, sobre o seu acolhimento em oposição ligeira ao seu “contimento”, sobre a violência exercida sobre o mesmo ou sobre a agressão relativa à sua zona de conforto.

Sugerimos dois exemplos, a verticalidade imposta e reforçada, e o corte. A comutação da horizontalidade pela verticalidade, constitui uma agressão ao conceito de estabilidade, mas ao mesmo tempo que essa verticalidade é instituída, os valores do objecto aproximam-se de um consentâneo predicado de objecto escultórico. Vemos, portanto, uma banheira que se torna vertical e apodera-se de valores que podemos sondar como; o objecto como totem; como estátua ou como uma estrutura apoiada e recomposta particularmente receptiva a uma miríade de campos de entendimento e recepção.

Outro exemplo, o corte, a separação, mas que neste caso, implica também a sua união. Separada, seccionada, mas ainda inteira. Perde a forma habitual, mas conserva unidade. A violência do corte de um objecto físico reporta-nos para a violência sobre o corpo. Dá-nos, neste caso, pistas sobre a ausência da circunscrição, sobre o desconforto gerado pelo desaparecimento do amparo comum às paredes da contenção. O objecto-escultura já não contém o corpo (nem outro elemento físico), contém por outro lado questões relativas aos dogmas que criamos para fantasiar o conhecimento que pretendemos ter em relação ao nosso corpo, ao espaço que o envolve e aos vínculos que pensamos serem estreitos entre eles.



2.

A partir do interesse filosófico partilhado por Maurice Merleau-Ponty, o segundo corpo, conhecido como “espaço”, transpõe uma barreira de objectividade na criação de um subjectivo, fora dos cânones geométricos, arquitectónicos ou terrenos.

Este corpo e a sua espacialidade são unos, e nessa acção de se tornarem indivisos convocam o real e o virtual e o físico e o cognitivo. Este spatium perde consequentemente o seu próprio sistema de intencionalidade sendo por fim baseado na percepção.

O pensamento “espacial” do séc XX que é criado a partir das questões prementes da época, como a psicologia, as questões da etnologia ou a práctica científica, alinhava no conceito de um espaço objectivo universal. A fenomenologia de Merleau-Ponty avança com a ideia de vários espaços subjectivos que na sua pluralidade desembocam num único, o da percepção, antagónico ao espaço abstracto da geometria.

O objecto que brota no corpo-espaço, tem frequentemente, a habilidade de o transformar. O espaço material que comporta o objecto, e o espaço cognitivo que o procura receber grudam-se às suas qualidades intrínsecas para criar um lugar onde sobrevivam e confluam.

Vasco Costa traz-nos exemplos disso mesmo.

Uma peça de caracter dubiamente instalativo, composta por várias grades ou portas de gradeamento surge no local físico, quiçá, convertendo as paredes em muros. A sua linguagem rebuscada e confrontadora permite-nos pensar a delimitação do próprio espaço. O “pensamento” que pode discorrer dessa aplicação de limites, não contempla somente a ideia sine qua non de restrição, abre também o “para além” do permitido. Essa acareação consente, por sua vez, o agudizar do olhar perceptivo em relação ao espaço.



Embora a significação material do objecto seja dura e brutal, ilustrado pelo minério transformado que é o ferro, o seu leque de interpretações é extenso e maleável.

Reconhecemos duas ideias, uma a ideia de gradeamento com a noção de segurança do corpo, como também o poder que o próprio corpo adquire com a possibilidade de circunscrever território. Reconhecemos igualmente outra ideia, a de que o território possa ser circunscrito pelo mesmo material, com o objectivo de o prender, isolando-o e afastando-o do exterior. Estas noções serão princípio para uma panóplia de ilações possíveis referentes à peça em questão.

A questão do território no corpo-espaço aparece novamente e objectivamente numa parede construída de chapa ondulada no extremo oposto do espaço expositivo. Embora existam diversas formas de pensar o objecto, ele também ambíguo na sua proximidade à instalação, surpreende-nos uma, a sua solenidade. A sua solenidade joga no campo do aparato, mas também na sua relação com o corpo-espaço, com as suas subjectividades e particularmente com as qualidades que possui e com as quais lhe é permitido transformar o espaço físico abstracto nesse lugar-corpo de percepção ideias e matéria.

Não obstante a sua corriqueira materialidade, a forma como é pensada no espaço cria-nos outras validades estéticas. Podemos facilmente, num exercício provocado, relacioná-lo com um retábulo, ou ainda com um pormenor arquitectónico numa fachada de um edifício. Ao invés a nossa percepção pode colocá-lo num galinheiro ou numa coelheira.

O que não se consegue dissimular é o seu lugar e o seu diálogo com os outros objectos e a abrangência do espaço.



3.

O terceiro corpo e a sua interacção com os anteriores, surge-nos primeiramente, numa análise crítica e livre, ao trabalho de Vasco Costa no seu todo.

Numa primeira tentativa de exploração da ideia, emerge-nos a concepção de um corpo que paulatinamente navega entre o primeiro e o segundo corpo. Este ente invisível no decorrer da sua viagem entre os dois pontos, a determinado momento, estaciona no seu próprio ponto. Lemos o ponto A como o primeiro corpo, o B como o segundo corpo e o C como o terceiro corpo. A partir do instante em que se estabelece, o seu movimento é alternado entre o seu ponto e o ponto A e entre o seu ponto e o ponto B, criando, por assim dizer, um canal que alimenta o fluxo de energias que permitem o êxito do interligado, desígnio. Estas deslocações produzem efluências, emanações de cariz transcendental que conferem aos objectos e aos corpos determinados poderes.

Os objectos que destacamos anteriormente patentes nesta exposição de Vasco Costa, todos eles sem distinção, pertence seguramente ao universo do primeiro e do segundo corpo que aqui brevemente roçamos o toque.

Todas estas obras são lugares do corpo e lugares do espaço, mas onde se encontra a alegre sintonia entre estes dois corpos que permitem a criação do corpo da obra de arte?

Queremos supor que exista este terceiro corpo vadio, negável e delével que por artes mágicas confere harmonia aos agentes presentes no processo de criação da obra de arte até ao objecto de arte em espaço expositivo.
                                                                                                Rubene Palma Ramos
Lisboa, Outubro 2018


Circulo de Artes Plasticas de Coimbra (CAPC) Jardim da Sereia / 2018
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