Um Camelo no Alaska

2019


Pele de carneiro sobre betoneira.


O agravo subversivo da paragem da máquina, dessa incongruência (ou inaceitabilidade), é abordada por Vasco Costa na enigmática obra Um Camelo no Alaska. Adotando o jogo de opostos sobre o conceito de “paródia”, criado por Georges Bataille no seu texto O Ânus Solar, publicado em 1931, Costa reinterpreta e questiona a descontinuidade, o interregno, a deriva que o texto de Plínio Marcos evoca.

Imóvel e disfuncional, este corpo escultórico estranho, exótico, híbrido, meio animal meio maquinal, convoca a ideia do “absurdo da paragem” e a da “utopia do folgo” — todavia, não apenas da máquina, mas do sujeito produtivo confrontando a sua indissociável ligação a situações críticas, de inatividade forçada, de inutilidade, de precariedade, de quotidianos condicionados por uma sociedade de produção e tempos laborais. Neles, a erosão dos sentidos conduz à frustração, à desorientação, ao isolamento e a uma sensação de vida nua, traduzida em estados de loucura, alheamento, revolta, violência física e psicológica, com consequências mentais, sociais, económicas e existenciais graves.

Paralelamente, esta obra leva-nos a uma outra problematização, a da relação entre o corpo e a pele, a máquina e o corpo, a máquina e a pele, o frio e o quente, os sentidos, a que se pode acrescentar o peso da história: a industrialização evocada pela betoneira, por sua vez associada ao movimento rotativo e à engrenagem que tudo gera e à pele animal depositada horizontalmente sobre a máquina, evocando um universo pré-máquina, uma cosmologia natural, que nos leva a uma memória vaga de origem e a uma certa ideia de pureza e calor.

Testemunho e símbolo de certo passado, estas são sobretudo referências significativas para o presente: uma obra sobre a humanização da máquina e da sua camuflagem através de uma organicidade apelativa.

Sandra Vieira Jürgens






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